Silverspoon_LX 2016 (Edição 1)

Silverspoon_LX 2016 (Edição 1)

Ir a um evento Silverspoon, é primeiramente uma viagem.
Fazer a mala, pode literalmente ser uma boa ideia.
Tendo gostado da edição de 2015, assim que os bilhetes saíram, freneticamente utilizei o cartão de crédito, para adquirir as entradas deste (eventualmente primeiro) de 2016. The dirty model edition diz o postal, enquanto a rapariga com pouca carne, pose provocadora e pouca roupa olha para nós através do convite.
Depois é aguardar. Esperar, evitar consultar as redes sociais, especialmente se houver dias de evento antes do dia em que vamos - que senão lá se estraga parte da surpresa.

24 horas antes, nem mais nem menos chega uma mensagem. Dita a hora, o local, mas desta vez não ditou um traje ou uma ideia de conceito de festa. Aumenta ligeiramente a ansiedade. O sentido de descoberta, dita um edifício há muito encerrado. Um antigo cinema, prestes a ser convertido no próximo hotel da cidade, nos próximos apartamentos de luxo para oferta de Golden Visa a cidadãos estrangeiros.

A entrada fez-se tardia em dia de jogo sa selecção. Cá fora se aguardou pacientemente pela possibilidade, por entre chupas de camarão
“SUGAR HIGH
Camarão . Laranja . Pimenta selvagem”
e vodka elyx de mixologia de acompanhamento.

Já lá dentro, os actores ensaiavam em cima do palco, coordenados, com as luzes apontadas, enquanto os passageiros escolhiam os melhores lugares das bancadas, em duas mesas compridas, lado a lado com desconhecidos, num ambiente fantasmagórico a que nem o Quasimodo faltava.
Meynard e Norwood, possuem composições corporais bastante diferentes, A sua forma de bailar é também ela distinta, como será sempre entre Barítonos e Sopranos. Conseguem formar um par no entanto, e por ali ficaram enquanto nós insensíveis íamos prestando menos atenção ao espectáculo que eles faziam e mais atenção aos libretos que iam desfilando nos nossos lugares.

Sentados, apresentados, começam as hostilidades com
“COCKTAIL PARTY & FACE MASKS
Olho de boi (yellow tail) salgado em vodka e limão . Limão . Vermute
(Absolut Elyx Martini)
Atum ahi marinado em gin . Azeitona . Alcaparra frita . Queijo creme
(Plymouth Gin dirty Martiny)”
Cada um dos frascos acompanha uma das delicadezas, assim a seco, sem grandes alimentações desde a hora de almoço e depois de uma hora de pé à espera, faço esgares de partilha de shot's com o holandês sentado ao meu lado. Mas insistimos e despejamos. Lemos tardiamente que eram para acompanhar a comida. Se soubesse que alcaparra frita era assim, teria seguramente esperado, embora o gozo do queijo creme aqui seja de outro nível, assim como o serviço em tabuleiro de vidro (dirty model edition), que ao mesmo tempo permitia ver o magnífico lucernário no telhado por cima de nós ainda iluminado pelo dia.

“ECSTASY
Ostra . Yuzu . Nori . Gengibre
(Champagne Perrier-Jouët, Grand Brut)”
A pequena pilha não deixva antever tamanho sabor. O sacana do Yuzu, não estava naquelas pequenas raspas, mas sim na espuma que dominava a coisa, só sendo possível de combater com a gelatina de pepino. O Nori era um toque singelo, apropriado porque trazia textura, pouco habitual na forma, e tudo isto por cima da ostra, que lá teve de aguentar com o mundo às costas e o prato também.

“SKINNY BITCH
Bife Tártaro . Sementes de Girassol . Tupinambo . Maçã . Mayonnaise de Alho Queimado
(Selecção do Barman)”
O prato da noite. Gosto de Tártaro. Aceito desafios por quem me diz conhecer o melhor da cidade. Desloco-me para os obter. Por isso ser surpreendido por um, não é nunca menos do que agradável.
O prato (suporte) era um dos utilizados na edição do ano passado (isto de memória visual é uma coisa estranha), aqui revestido a uma textura castanha que ajudava a unir o grande disco de maçã desidratada que cobria o tártaro em cima e mediava os pequenos discos de Alface Iceberg por cima. Mais doce que o normal, untuoso também, de corte manual, tudo extremamente bem conjugado, excepto numa questão: quantidade. Em demasia. De ambos os lados houve quem deixasse no prato e depois houve quem comesse tudo (foi assim que me ensinaram), de tão bom que estava. Mas foi exagerado.

“DIRTY TERRY
Triade (threesome) de Beterraba. Frango . Kumquat . Uva de Urso . Aipo . Rábano . Óleo de Pinhão . Molho de pimenta quebrada
(Herdade do Cebolal, branco, 1998)”
Aqui o frango fez o seu efeito de sousvide bem aproveitado, com as beterradas e restantes sabores sortes a constastarem muito bem, inclusivé nas texturas. Mas distinto mesmo? Um branco de 1998, estreia mundial, laranja acastanhado, muito português, impossível para estrangeiros e que eventualmente até conseguirá chegar às prateleiras dos supermercados se não for directamente para as caves de quem o comprou de tão escasso que deve sair.

“Black & BLUE
Sorvete de Mirtilo . Coalhada de Mirtilo . Pimenta . Basílico . Cacau seco”
Chegada a sobremesa, escura como tudo, a mousse e a coalhada a fornecerem as texturas diferentes para sabores semelhantes, mais as tapiocas de basílico, e as telhas de cacau. Daquelas coisas que não se esquece facilmente, e que poderiam sempre ser servidas, como um prato solto. Sem medos e rodeios. Se assumimos que é para comer doces, eles não têm de ser apenas no fim da refeição.

Conversa puxa conversa e o jantar que começa cedo acaba tarde dentro do teatro abandonado. Continuo a gostar e a preferir que assim seja. A fruição da refeição, tem a ver com chefs que não só explicam como conversam, que se juntam nas mesas, que partilham experiências tal como os parceiros que por ali estavam.
Venham mais destes. 

Cave 23

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Aberto. Com nova gerência.

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