The Old House: “Como todas as multinacionais deviam ser”

The Old House: “Como todas as multinacionais deviam ser”

A visibilidade diz muito sobre esta casa.
Numa zona que estava morta, e a troco de dois ou três Golden Visa, aparece um gigante da restauração chinesa.
E tivémos sorte. Poderia ter entrado o McXiang, mas afinal entrou o The Old House.
Até rochas trouxeram do outro lado do planeta, quanto mais riquexós e loiça. 

Pela quantidade de gente que dedicou nas redes sociais tempo a descrever este estabelecimento, a visita era tudo menos inevitável e apropriada. Ainda para mais tão perto que está de casa, só fazia sentido.
Primeira reserva efectuada através de Zomato. Pelo sim pelo não confirmada de volta pela casa após apenas algumas horas da marcação, revelando cuidado e atenção.

Dita de Sichuan (que é como quem diz, província que é do tamanho de um país europeu inteiro, como…Portugal), a gastronomia praticada tem de facto algumas diferenças para aquilo que nos fizeram crer que era comida chinesa durante décadas. Não que fosse má, simplesmente é distinta.
E com o conhecimento, abrem-se também outras visões e neste caso outros sabores.
A quantidade de proteína existente em cada prato, é o que o torna um restaurante de luxo. Este tipo de comida, não pode existir com esta balança entre vegetais e proteína por lá, senão para os muito ricos. 

Como aperitivo, e enquanto não chegam os convidados todos, duas pequenas taças de iguaria. Uns amendoins (sempre alguma piada em comer amendoins com pauzinhos) cozinhados/cozidos sem ser torrados, com um sabor completamente distinto do habitual. Na outra taça, pedaços de carne ladeados de vegetais, tudo muito míudo, acre, de sabor intenso, mas um limpa palato perfeito para a opípara refeição que se seguiu.
De entrada, as entranhas (é o chamado comer de dentro para fora), com as línguas de pato, as patas de galinha, a cabeça de porco. Tudo coisas usuais na China...e em Portugal. Agradáveis, mas talvez o menos conseguido da refeição inteira. Os temperos utilizados não fazem com que as peças se distingam em demasia umas das outras, as texturas sim, são distintas, mas apenas na procura de ossos e cartilagens pelo meio das peças. 

O Pote: a estrela da companhia. Ou aquilo que uma dona de casa chinesa faz, quando chega ao fim do dia, abre o frigorífico e só vê tupperwares. Mistura tudo, como em qualquer parte do mundo. Segundo nos foi explicado, não existe nenhuma dona de casa no piso de baixo, por isso a receita segue uma base fixa, à qual são acrescentados alguns ingredientes do dia consoante a disponibilidade de proteínas. Um prato que mistura simultaneamente Lula, Dobrada, Pato, Porco e Vaca, merece directamente o meu aplauso. Quando é agradável, então ainda mais.
Camarões com folhas de chá: agarra-se nuns camarões, enrola-se numas folhas de chá, e depois: para dentro da fritadeira. Sendo da gama 60/80 ficam tão crocantes que é possível comer de fio a pavio. São uma coisa engraçada, mas não iria lá de propósito para tal. 

Panqueca Chinesa: um pão. um pão muito guloso. Uma coisa que em Portugal, deveria ser servido em todos os restaurantes chineses. Nós agradeceríamos seguramente e seriamos consumidores regulares da dita iguaria. Garanto que serviram muito bem para limpar tigelas.
Cogumelos salteados: desde que descobri a variedade Eringi, achei que o sabor da comida chinesa típica cá em Portugal, era o deste cogumelo. Esta mistura, muito mais rica e variada é um excelente prato vegetariano, que facilmente complementa com uma taça de arroz uma refeição sem animais. São deliciosos. Comem-se à sobremesa se necessário.
E por falar em sobremesa, aqui não há tantas opções como nos restantes. a não ser que viagem com uma caravana grande, não pedir mais do que uma parece ser o objectivo. No nosso caso, uma para 4 foi mais do que suficiente, sendo as bolas dos ceús em número elevado, fritas e com um creme de feijão no interior. Sabores raros e texturas distintas, para terminar bem a coisa. 

É confuso entrar ali sem jet lag. Sai-se do carro, atravessa-se o portal e embora o atendimento seja em Português (e muitas vezes de Portugal), é inevitável a comparação com outras latitudes. 

Absolutamente concretizada a decoração, do piso de baixo até ao de cima, com os patos a secarem na cozinha, os bambus e papel de arroz com a sua luz quente, todas as porcelanas em modo de exposição alinhadas uma ao lado das outras, como se de uma produção em série se tratasse (e que é). Até os terremotos parecem estar presentes no restaurante, especialmente nas mesas junto à fachada principal do piso de cima. O aumento dos vãos e ausência de pilares no piso inferior, junto a uma estrutura metálica, conferem algum balanço à coisa, acentuado pelo passo compassado e apressado dos funcionários em serviço.
A pedido um tour no fim da refeição, demonstra as salas privadas, disponíveis para comer. 

A pedido um tour no fim da refeição, demonstra as salas privadas, disponíveis para comer.
Aqui respeita-se tudo. Não se cruzam paus, não se removem coisas da mesa, só se acumulam. Come-se em tigelas de loiça e os instrumentos são um par de Fat-chi's e uma colher para ajudar a sorver. As taças mexem-se da mesa e aproximam-se da boca. Houve um ensinamento grande sobre o que é cultura e o que é essencial de respeitar numa refeição entre chineses.
A prova parece ser a quantidade deles que frequenta a casa. É certo que também uma parte da comunidade habita por ali, mas não iriam se não gostassem. Das salas só saem sons incompreensíveis, mas felizes. 

Feliz ano do Galo. Pena ser um bicho caro.

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Cinema & Gastronomia (2 de 4)

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