Go-Juu: “Clube Privado”

Go-Juu: “Clube Privado”

A ida ao Go Juu estava a ser revestida de especial dificuldade. Telefonemas em cima da hora, azares de última hora, dificuldades logísticas, e uma malapata tremenda.

Nunca desistir é um lema, por isso lá calhou em tarde solarenga de Inverno, passar por ali sem almoçar, e já bastante tarde para a grande maioria dos comensais.
Sítio encerrado para o exterior de traça moderna não condizente com os saberes e sabores de extremo oriente, transpomos. Fila. Pouca fila, o suficiente para ver a sala cheia e ainda alguns lugares reservados para quem chegasse.

Fila. Passa o Zeinal Bava. Tinha mesa reservada.
Fila. Há desistências. (e eu indago-me se será desta).

Foi. Cordialmente dirigem-nos à nossa mesa, que infelizmente o balcão ainda estava todo ocupado e a fome já era mais que muita.
O desaparecimento do Aya em Lisboa foi uma coisa má. A dispersão dos seus discípulos por diversos projectos, não tem porque o ser. Só temos a agradecer a Takashi Yoshitake por ter escolhido Portugal e por ter conseguido treinar tão bem um bando de gente. Estamos agora a receber esses louros em diversos locais.

Menu grande, do qual pedimos:
Hotate: Não havia
Ajitataki: Não havia
Chirashi de Unagi: Não havia
Tamago Nigiri: Havia que tinham acabado de fazer a omolete, e diz-se que é por aqui que se entende a grandeza de um restaurante japonês pela sua habilidade em tornar um ovo em algo especial, e no cuidado dado à mistura com vinagre e na textura (e espessura das camadas) oferecida ao cliente.
Uramaki de Ebi Abokado Sāmon: Havia e era a coisa mais simples do mundo, mas ali com um objectivo muito específico: Camarão e salmão, são hoje as galinhas do mar. Vivem sem alguma vez terem visto o oceano, são alimentados puramente a ração, perdem sabor, perdem valor e por isso são bastante apreciados enquanto fontes de proteína que ainda por cima são ditas saudáveis. Também existem obviamente na natureza, com diferentes preços e com sabores distintos. Juntamente com o abacate, parece o rolo perfeito para ou ser nada...ou ser tudo. Também a fruta, colhida madura ou colhida verde para poder usufruir de diferentes tipos de transporte que lhe alteram o preço entra no jogo. O rolo é bom, notam-se as diferenças e soou bastante bem.

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Por esta altura, e tendo andado para a frente e para trás no menu (sendo este o restaurante que serve atum como quem está a falar de leite: gordo, meio gordo e magro, com preços completamente distintos entre as diversas opções), a minha cara devia transparecer o que estava a acontecer: mais um sítio onde ia comer arroz com peixe banal, e pagar demasiado dinheiro por isso.
A casa resolveu isso, de forma a que apesar de três faltas em cinco pedidos, esta foi uma das melhores experiências de japonês dos últimos tempos. 

Não discutimos preços (a conta final não saiu mais cara), não me disseram tudo o que ia comer (coisa que profundamente adoro em restauração) apesar de não estar sentado ao balcão, supreenderam-me muito com o que ofereceram em troca, e provavelmente ganharam um cliente assíduo.

Explicaram também que o problema se devia à não comparência dos fornecedores. A razão talvez tenha sido óbvia: isto aconteceu depois do Natal, e dos dias de quebra de produção no país que daí costumam advir.

Asa de pregado com molho picante: Lá no extremo oriente, há um pregado grande. Chama-se Alabote e é uma besta que chega aos dois metros. Aqui nem tanto, mas para se trabalhar apenas e só com a asa do pregado, removendo-lhe a pele e a espinha, também já são necessários uns peixes grandes. Peixe que nunca tinha provado enquanto sashimi, e próximo do nível de “pitéu”. Carne rija, muito texturada pela zona de onde é colhida, com um pequeno toque de picante, a ser necessário trincá-la e saborear.

Ostras panadas: Torcer o nariz. Ostra é frágil! Mais um mito desfeito. Esta é oficialmente a primeira preparação de ostra cozinhada que admiro. Revestidas a Panko, mergulhadas muito pouco tempo num óleo que aguenta muita temperatura, o interior não estava borrachoso como esperava, antes sedoso e a conservar algum daquele sabor de mar. A acompanhar veio um singelo molho agridoce. A espessura era tal, que quando se voltava a inclinar para a posição vertical o contentor do mesmo, o fio de molho recolhia parcialmente à origem pela viscosidade do mesmo. Combinação fantástica.

O melhor no entanto estava para vir. A 1/2 cabeça de garoupa cozinhada em molho de soja. Tudo isto fez sentido. Desde a aparente dificuldade de um par de pauzinhos versus um crâneo, com as lascas do peixe a sairem perfeitamente; o acompanhamento de grelos (que forma tão bonita de apresentar grelos), passando pelos Nameji que acompanhavam, e que constrastam bem com a doçura do molho de soja; as rodelas de Taro caramelizadas; tudo.
A travessa terminou transformada num inevitável campo de batalha, com espinhas, mandíbulas e peles amontoadas. Mas a memória deste prato é algo de muito especial.

A arquitectura interior contrasta com o despojamento exterior. As madeiras hiper presentes (especialmente na sala privada), a luz muito controlada, a contemporaneidade transmitida por aqueles ecrãs na parede de fundo, que não chocam apesar de tudo, as pedras sérias e grandes presentes no balcão do bar, a luz da rua filtrada sucessivamente por cortinados, paredes de acrílico fosco com inclusão de elementos naturais. Como reparo, apenas a diferença entre os tons de madeira de algumas peças...but frankly my dear...i don't give a damn.
O atendimento esse está ao nível da comida. Percepcionar um cliente pela primeira vez apenas e só a partir do pedido feito, não é para todos. E isso ali aconteceu. Diligente, simpático sem intromissão, operativo e bem distribuído. Cada um sabe o seu sítio e o que tem de fazer. A coisa resulta.

Safou-se à grande, através de malabarismo. Grande!

 

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