Quando é que passa de caro a obsceno?

Quando é que passa de caro a obsceno?

Um tema de discussão recorrente. Pagar por uma refeição para duas pessoas o salário mínimo nacional em 2017 (557,00€) é uma raridade em Portugal, mas não é impossível, embora isso não esteja nem ao alcance de todos e não seja explicável a um sem número de pessoas. 

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Comer fora por necessidade fisiológica, sendo hoje comum, principalmente em meio urbano e durante o horário laboral, corresponde precisamente a isso: à suplantação de uma necessidade. Quando passamos dessa necessidade para o prazer de usufruir das experiências que não conseguimos ou que temos dificuldade em repetir em casa, aí as coisas modificam-se. 

Como lógica de consumo, em tudo o que nos dá prazer, em tudo (porque não?) o que é viciante, a programação humana diz: mais e mais e mais. Quero mais. Sendo que a alimentação contemporânea, está hoje absolutamente cheia de vícios curiosamente quase todos eles pós brancos. Não há coincidências. Sentimos quase todos privação de sal, açúcar, farinha. 

Um dia alguém nos apresenta um restaurante. Os progenitores, muito provavelmente na maioria dos casos. E aquilo pega-se à memória como gente grande. O ambiente é diferente, temos alguém para nos servir (este ponto pode amplamente ser posto em causa hoje, com tanto "food court" por aí), temos uma variedade de iguarias que podemos escolher, uma variedade de bebidas, uma refeição composta de fio a pavio. A sensação de descoberta de um mundo novo, uma experiência que é equivalente a tantas outras, desde a visita ao museu, a primeira peça de teatro ou concerto, conhecer um novo destino, uma experiência, que contém uma diferença: é das poucas que alia também o olfacto e o paladar aos restantes sentidos. 

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A montanha russa, a partir deste ponto, começa a subir. Ganha-se o gosto. E consegue ser vertiginosa. Como em todas as descobertas de novos mundos, tudo é deslumbrante. Mais ingredientes, mais preparações, mais pessoas, partilha de experiências, mais restaurantes, pessoas que comungam dos mesmos interesses, tudo. A história, as estórias sobre a história, a evolução ao longo dos tempos. Válido para gastronomia, entre tantas outras temáticas. 

Mas como em qualquer curva, existe um apogeu. E esse apogeu é chegado, no momento em que após uma refeição (normalmente mais cara que a média), um se pergunta: A experiência de que usufrui versus o custo associado à mesma, compensou? E se a pergunta foi colocada, é sinal de que a dúvida está implantada. 

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Qual é o verdadeiro custo de uma refeição? O dos ingredientes, do custo salarial do pessoal que os preparou, e a amortização das instalações onde o fizeram? Da formação específica e dedicada de todas as pessoas envolvidas, da maquinaria cada vez mais complexa e sofisticada existente nos laboratórios de preparação alimentar (cozinhas), da descoberta e transporte daquele ingrediente que mais ninguém tem nem ouviu falar? Da comunicação a esses espaços e cozinheiros, do lucro dos investidores que os colocam de pé? 

Podendo servir por vezes para justificar o injustificável, o preço de uma refeição varia de pessoa para pessoa e varia por uma só razão: A experiência. 

Considerando uma refeição uma experiência efémera, muito pouco tangível para além do momento (é certo que fotografas e escrever ajuda a recordar, mas é precisamente isso recordar), e que apenas as grandes marcas de "fast-food" pretendem a replicação constante e absoluta do conceito originalmente criado, o risco de uma refeição cair no esquecimento passado alguns meses é grande. Isso deveria fazer cair o seu "valor". Mas não é verdade. Insistimos e persistimos em ter mais experiências semelhantes, desejando até obter mais e melhor. No equilíbrio da balança o dinheiro de um lado, do outro a pena das 21 gramas da criatividade e do engenho, da novidade, do conceito, do saber fazer desde a tradição mais secular à invenção mais vanguardista. 

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Consoante a experiência, o custo acumula-se. Mas a pena mantém-se. Torna-se por isso mais fácil, "desculpar" a experiência mais básica. Não é raro, ler nas redes sociais (esse grande arauto da verdade) dedicadas, sobre a desilusão do consumidor, com determinados espaços.

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A noção de desencanto, advém para mim por comparação. Surge normalmente por uma de duas motivações: Por um lado uma recomendação prévia de alguém em quem confiamos, cujo usufruto se revela uma fraude. Por outro a fraude na experiência, em que a conclusão é: eu já comi isto e paguei muito menos. 

Fútil que seja, o consumidor faz isso mesmo: consome e compara. 

 

 

Esporão: “Destino”

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Espaço Espelho d'Água

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