Comida não comida

Comida não comida

A discussão sobre o que é alimento e não é, empiricamente advém desde o início da humanidade. Alguém teve de provar as bagas vermelhas e não passar demasiado mal. Alguém teve de ver e evangelizar comunidades sobre a segurança alimentar da dita baga. 

Alimento é diferente de comida. E essa discussão é hoje muito mais vasta. Recordo um episódio relatado no "Fast Food Nation", escrito por Eric Schlosser, em que ele sumarizava numa página inteira os ingredientes do batido de morango servido pela cadeia McDonald's. 

Espanto dos espantos, não levando nem leite nem morango (enquanto coisas mais ou menos concebíveis), também não levava corantes nem conservantes, sendo apenas feito com ingredientes naturais. A grande questão reside na designação "natural", e o pequeno excerto terminava com algo parecido a: nunca ninguém disse, que casca de ovo e raizes de árvores não são ingredientes naturais. 

Com a transformação de alguma gastronomia em 9ª arte (um número sequencial a seguir ao sete), a comida passou a assumir um papel relevante, e as outras artes parecem ter entrado no jogo.

A pescada não nasce com o rabo na boca e o Grant Achatz não tinha necessidade de fazer uma sobremesa Pollock no Alínea. São opções sobretudo estéticas. 

A comida já não tem de ser comida. 

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Não no sentido em que o Larry Olmsted descreve no Livro "Real Food/Fake Food: Why You Don't Know What You're Eating and What You Can Do about It", em que aí se trata de comida falsa, em que através da alteração ou substituição de ingredientes e de embalagens enganadoras o fabricante altera as suas margens de lucro (sendo toda a variedade de surimi um óptimo exemplo). 

  SLS COMPANY CO., LTD  Alibaba.com

E também não é seguramente o crime acontecido na Nigéria no final do ano passado, em que foram apreendidas 2,5 toneladas de arroz falso. De plástico.

Isto atesta no entanto a capacidade da imaginação da humanidade para o bem e para o mal. Embelezar a comida, com o propósito de venda sempre foi amplamente executado, particularmente num mundo que vive da imagem. O McDonald's desenvolveu o food styling até ao extremo, mas sempre dentro do cariz "natural" da questão. 

Do lado contrário, os japoneses produzem alimentos em cera à demasiados anos, com o intuito também de venda, naquilo a que o ocidente se habituou a consumir como a caderneta de cromos dos restaurantes asiáticos. Por lá é uma arte, com décadas, com um desenvolvimento artesanal extremo, mas ainda assim com um cariz informativo e utilitário.

Mas....e quando a comida é promovida a arte?

O primeiro exemplo que me recordo de ver é do Brasileiro Vik Muniz, que teve uma série completa executada com comida. O jogo é a escala e a interpretação de iconografia sobejamente conhecida, que facilita a interpretação. 

  Medusa Marinara.  Vik Muniz 1998

Medusa Marinara. Vik Muniz 1998

Daí aos separadores do Food Network criados pelo Shay Aaron, que pela miniaturização de comidas que conhecemos todos os dias acaba por criar cenas hiper realistas de escala distorcida, foi um pequeno passo técnico mais do que criatividade. 

Ou ao talho de peluche (convertido após o período inicial de arte, em loja de internet), Aufschnitt, onde como eles dizem: "tudo é vegetariano". 

 Robert Schlesinger/AFP/Getty Images

Robert Schlesinger/AFP/Getty Images

A mercearia tricotada da Lucy Sparrow, onde todos os artigos foram replicados e repetidos para encher as prateleiras. 

  Lucy Sparrow , The CornerShop 2014

Lucy Sparrow, The CornerShop 2014

Ou os exemplos da Kristina Lechner, que de define como Fake-food photographer | 0% food 100% household items.

 Did someone say "National Burger Day!?!" 🍔🙌 (Gotta love that almost every day is a national food holiday) Here's to barbecues and beers - so happy summer is (unofficially) here!   #foodnotfood

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(Gotta love that almost every day is a national food holiday)
Here's to barbecues and beers - so happy summer is (unofficially) here! 
#foodnotfood

E do Brock Davis (que já conta com 186000 seguidores no Instagram), onde a junção entre o analógico, o digital e a sugestão criam novos mundos:

 pencils and rubber bands - 2013  #chopsticks

pencils and rubber bands - 2013 #chopsticks

A mim sempre me disseram para não brincar com a comida. Mas...e se lhe chamarmos arte? Isso conta? 

Capa: Steak Art Mural by Xi-Design, Berlim 2016

Façam as vossas apostas Michelin 2018

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Café Garrett

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