Café Garrett

Café Garrett

A pergunta não é nova: como é que a comida portuguesa se reinventa? Qual é o caminho? Porque preferimos (quem consome e quem executa) na grande maioria das vezes a imitação a trilhar o próprio caminho?  

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A resposta que o Leopoldo encontrou é das minhas favoritas: conhecimento empírico regional passado de geração em geração aliado à excelência do ingrediente.  Não terá sido uma resposta fácil, ou um encontro directo, uma vez que a formação base é a Arquitectura. Desse mundo, restam coisas evidentes, como a composição estética do prato, o mobiliário escolhido que contrasta com o lugar, as cores a dedo em cada elemento. 

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Não podemos nem devemos perder a riqueza do passado em troca do facilitismo presente, e no caso particular do Alentejo, também não devemos perder a noção da origem pobre (de fome mesmo) do receituário, provavelmente dos mais ricos do país.  Se existe a piada comum das 1000 receitas de bacalhau, no Alentejo pode-se substituir esse também outrora pobre ingrediente pelo pão, esse gigantesco ingrediente. 

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O choque é grande: cabeças de borrego. Assim apresentadas. E no entanto ali está todo um manancial, parte para comer como ensopado, parte já barrado em fatias de pão. Meio esverdeado, que há muita coisa também a aprender nas ervas, nessa sabedoria toda que nos transmite a hortelã da ribeira e o poejo, os omnipresentes coentros. 

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Agora que foi Verão, também os tomates tiveram direito a jantar próprio, desde o gelado de entrada à sobremesa. 

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Mas não é caso único. As entranhas estão presentes, os cortes pouco usuais pelo inusitado e pouco frequente, e de vez em quando os outros: aqueles que aparecem só de vez em quando pela especificidade da época como as silarcas, o javali, o borrego ou o pombo. 

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Na sobremesa que vem através do Pudim da Mãe Joana, há requintes de diferença, com texturas pouco habituais, com sabores complexos, que se esperam de um fruto seco, mas que não são rotineiramente comidos assim, à fatia. 

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Sendo o mesmo válido para os vinhos, cuja listagem grande se encontra dividida por patamares de preços, sendo a grande maioria dotados de algum exotismo conferido pela pequena dimensão dos produtores. 

Ao contrário da comida, o local é ostensivo. Quase se poderia dizer, que aquilo que é praticado na cozinha é insolente perante as paredes que a albergam.  Aquele enorme átrio de pé direito elevado como se pretende num “foyer”,  as mesas que são desenhasse e elegantes, mas que ali definham perante a opressão. Nem cerâmica simples e de cores suaves fazendo jus ao que é servido, conseguem sobreviver.

No único quarteirão de Lisboa que não possui como acesso nenhuma rua (o que isto dava num rallye paper), sendo as confrontações a Sul a Praça Dom Pedro IV, a Norte o Largo do Regedor, a Oeste a Praça Dom João da Câmara e a Este o Largo de São Domingos, o café Garrett assume-me muito provavelmente como a ilha que é. Próximo que está da embaixada do Alentejo em Lisboa, pratica uma arte mui nobre de excelência e devoção ao ingrediente como poucos o fazem.  

Se querem provar? Façam-no ao almoço. Existe um menu todos os dias, que dada a localização será das coisas mais "bonitas" da zona. 

Comida não comida

Comida não comida

Asiático do Príncipe Real

Asiático do Príncipe Real