Asiático do Príncipe Real

Asiático do Príncipe Real

Duas abordagens distintas:
a) Há uma nova geração de restaurantes asiáticos em Lisboa, sejam eles chineses regionais, ou genericamente “asiáticos” e este é um deles.
b) O Asiático, é o prolongamento natural da “Comer o Mundo” do Kiko Martins e António Barros, um regresso à génese, às viagens e às descobertas.
As duas abordagens merecem exploração, e Lisboa merece e dispõe de condições para acolher ambos. A grande verdade, é que Filipinas, Malásia, Indonésia, Suriname, Vietname são tudo territórios desconhecidos. Afloramos levemente em Lisboa a Tailândia, conhecemos métodos altamente sistematizados (mas não tão dignificantes) da China, Japão e Índia.
Depois do Talho, Cevicheria, Surf & Turf e Watt, chega agora a vez do Asiático.

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Omakase. Se é Asiático (e mesmo que não seja), que seja de fio a pavio e eu não quero saber o que vou comer. Confio em quem está na cozinha, confio em quem me serve e conhece os pratos e a direcção da refeição. Não preciso de mais.

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Talvez por isso e por ter chegado tão cedo, também confio quando me levam ao bar do primeiro piso, e é lá que começamos a refeição, com um Pisco migrado da Cevicheria, e um long sem álcool, rubro, de tanto calor que está. O pior do bar, são os amendoins. Viciantes até dizer chega e servidos numa tigela demasiado grande. Felizmente vieram-nos chamar.

Às vezes as entradas mandam-se para trás...outras vezes não.

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Paparis e uma chapata hiper fina (quase tão fina como o papari, distinguindo-se quase mais pelo sabor e cor que outra coisa, acompanhadas de uma manteiga com Togarashi e do outro lado uma gema de ovo (pensem em ovos moles enquanto textura, mas sem o açúcar), envolta em molho de soja. O problema é o mesmo dos amendoins.

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Um nigiri de carapau (Obrigado Paulo), em que o arroz...não o é. Uma brincadeira, um pequeno aperitivo, com um suspiro, que sabe a arroz que sabe a vinagre e a sal, mas que é crocante.

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As ostras. Yin e Yang, poderia lá ser outra coisa. A paisagem de mar bem arranjada, a ostra sob a forma de espuma, que esconde um segredo bem carnudo por baixo. A piada, vem sobre a forma de uma folha dita de “ostra”. De pesquisa posterior, aparentemente chama-se Mertensia maritima...e tem sabor a ostra. Em folhas. Uma conversa bastante interessante sobre: se não me tivessem dito que sabia a ostra, saberia a ostra? A prova de um guião muito bem treinado, um ensaio muito bem conseguido.

Salada de lavagante. Agora falamos. Som Tam (ou Som Tom ou Som Tum, decidam-se na vogal!).

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Nunca passa pela cabeça de alguém no ocidente utilizar fruta verde. Especialmente fruta dita tropical. Desejamos a maior quantidade de açúcar, embora isso quase possa indicar podridão. Nunca haverá manga e papaia verdes, desfiadas em pequenas farripas, uma juliana fina, com frutos secos torrados, algum mas pouco molho e uma (mas pouca, aqui é servida exagerada) proteína por cima. Isto é Ásia. Da séria.

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O Aroma do arroz. Foi fácil, enquanto houve o Carolino e o Agulha. Quando chegaram o vaporizado e o Basmati, a malta ainda se foi entendendo. Mas quando se chega aos Kokuho, Calrose, Thai jasmine, Mochi gome ou Patna, a coisa complica-se. O arroz veio da Ásia e são eles que o exploram melhor. Sendo que uma das melhores formas, será sempre Sticky rice (sobre food stalls, ler mais por baixo). Aqui servem um. Com leitão (que também é comido por lá, com pele crocante e tudo). Podia ter mais sabor? Sim. Mais açúcar e mais sal. Será necessário? Penso que não. É equilibrado e adaptado aos nossos paladares, traduzindo-se num prato agradável, com reminiscências à origem.

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Tapioca e Galanga. Ao contrário dos acima descritos, as sobremesas asiáticas são menos variadas (genericamente falando) do que as nossas. Este exercício é muito bom. Galanga é uma alternativa ao gengibre, menos adstringente, tapioca é a mãe de todas as gomas existentes. Emparelhar com abóbora e pera, traz simultaneamente as texturas e a frescura necessárias para se tudo se conjugue. Este repete-se facilmente.

Quem já foi à Ásia poderá corroborar esta opinião (se teve coragem): Food Stalls. O melhor da comida asiática é feito em 34 segundos, em qualquer rua, por pessoas que repetem o mesmo prato vezes sem conta ao longo de anos, ou até mesmo de gerações. E que se tornam especialistas nesse prato concreto.

E ficam conhecidos por isso. Ou não conseguem e dão lugar a outro food stall. São todos viciantes, saciantes, com sal, açúcar e farinha (só pó branco viciante) a rodos, que depois de nos conquistar...nos fazem voltar vezes sem conta. A um baixo custo, fazem-nos querer voltar e deixam-nos memórias.

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Esta é a Ásia que eu amo e duvido que não tenha sido a que também apaixonou o Kiko, o António e o Paulo. Esta visão (romântica sem dúvida) não é de todo compatível com o estabelecimento aberto no Príncipe Real.
São clientes e localizações distintas. Esta casa transporta-nos visualmente para o outro lado do mundo, logo no acesso, com as cores quentes, os materiais naturais, repetidos em padrões, com os clichés de estatuária e dos padrões a facilitarem a entrada nesse mundo.

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É incrível a facilidade (aparente), com que este grupo cria novos conceitos e os consegue potenciar através do charme das suas instalações.

A grande sala que se abre depois da recepção mais obscura, com as pedras claras, os verdes em enormes blocos de fotografias a quadrícula negra que separa a cozinha aberta, a árvore que sai pelo tecto da marquise, e as grandes portas que se abrem para o pátio. Duas árvores pequenas, que hão-de ter tempo para crescer.
Tudo parece apropriado, especialmente a casais, que de facto se vêem mas não só. Dividem espaço com grupos de amigos e com famílias, num espaço que esteve cheio, sem ter noção se rodou.

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Anseio que haja ainda mais vontade de arriscar, de trazer os sabores mais radicais. Nem que seja num carrinho POP-UP!

 

Café Garrett

Café Garrett

Esporão: “Destino”

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