Duplex - Restaurante: "A surpresa"

Duplex - Restaurante: "A surpresa"

Pelo sim pelo não, tivémos de repetir isto. E não tardou muito, foi em duas semanas. 
Aquilo que me motiva a querer experimentar outros lugares, é de facto ser surpreendido, e se isso positiva, ou negativamente é facilmente conseguido da primeira vez, o querer repetir, sem mudar a época, sem verificar se o menu é diferente num restaurante, em pouco tempo, é apostar forte nisso. Foi o que aconteceu. 
O Duplex, ainda agora começou, e é fruto de uma separação. Acabou-se o Pedro e o Lobo, e o Nuno Bergonse propôs-se estar em vários sítios ao mesmo tempo, desejando-lhe eu, que se é possível ser o Príncipe do Chiado, ou o Rei da Avenida, que seja ele o novo Duque do Cais do Sodré, com os seus Duplex, La Puttana, Marisqueira Azul e aquilo que lhe der na telha. 
Esta opinião, contém um “segredo” muito especial: Existem duas mesas dentro da cozinha, e nós à segunda vez, pedimos para ficar na de quatro pessoas (a outra mesa é para dois comensais). Nem sequer vimos as listagens disponíveis, para comer ou beber. O funcionamento é semelhante ao do balcão japonês: quando eu quiser parar tenho de por a mão no ar e pedir misericórdia, senão continuam a chegar à mesa mais coisas daquelas que nos deixam a salivar, ou nos provocam emoções sérias. E acreditem: é possível ter emoções sérias à mesa. Se isso ainda não vos aconteceu, procurem mais e melhor. 

Dos provados, sem distinção entre as ocasiões:
Começa isto tudo, por pão da casa, incluindo uma focaccia bastante saborosa (eiii...aposto que sobe no elevador privado do La Puttana, que é mesmo por baixo!), regado a Azeite da Cortes de Cima. Acompanha com o ramalhete que se assemelha aquele produto para ambientar a casa, com os paus de bambu. Mas não é: são gressinos, paus de esparguete colocados numa fritadeira bem cheia, com um molho fresco em baixo. Simples e visualmente apelativo. 
Vieiras com Avelãs e coco: Olha que bela ideia. Como se vieiras sozinhas, já não fosse bem boas, adicionas-lhes um crocante de lado e uma espuma por cima. Extremamente bem confeccionadas, sendo o único problema terem de ser comidas demasiado depressa. É que a espuma esvai-se e desinfla rapidamente. Isto na cozinha se calhar...dava para ter a garrafa da Isi, do lado dos comensais, e cada um ia borrifando como quisesse!
Polenta com molho parmesão: Eu aborrece-me o parmesão que sou Português e prefiro Ilha. Mas quando a polenta é apresentada sob a forma de “Jenga” do qual eu tenho de retirar palitos sem mandar tudo abaixo e depois molhar naquilo...Só dá para desculpar. Acho que vou começar a passar por lá, apenas e só para petiscar isto a meio de dois copos. 
Dim Sum, vegetais e agridoce: Seria o único a remover. Não acrescenta grande coisa, e com sabores à volta tão bem conseguidos, não me faz sentido. A não ser que o recheiem depois de cozinhado com...sei lá...inventem vocês. 
Bife Tártaro: Corte manual, na hora, com carne de excepcional qualidade. Não necessita de grandes coisas inclusivé da redução balsâmica que por ali anda. Batatas de corte chunky a acompanhar, mas que também acabam por ser dispensáveis. 

Ramen com todos e Magret de Pato Lacado: Uma dose grande, muito grande. A taça com a massa, uma gema de ovo cozida por cima, algumas lascas de daikon, e o magret ao lado, alinhado num prato. Os sabores punjentes, mais do que para uma “sopa”, a contrastarem bem uns com os outros, em regime asiático.
Risotto de açafrão, Rebentos de Soja e Camarão Tigre: hmmm...aquilo ali tudo enleado, fundido, mas com diferentes texturas, o fresco dos rebentos por cima, o ligeiro acre do açafrão. Uma promessa muito concretizada.

Polvo Grelhado com fricassé de legumes e uvas tintas: o polvo continua a ser aquela bicho feio só cozinhado por estas bandas, de grande dificuldade técnica e com nível de risco acrescido. Requintada a apresentação, com uns extras pelo meio, que são a batata cozinhada com torresmo de corte em cima, e o molho de fricassé extremamente guloso. 
Atum: Muito Bom. Sem estar na lista. Mas bom...a sério. Que grande pedaço. Mal passado, ligeiramente adocicado, adorável. 
Sobremesas: 
Assumindo que conseguiram chegar aqui, apostem tudo no Mil Folhas, com gelado de pera rocha. 
Ok, não ignorem também o Fresco de Lichias e o Pudim dourado, mas o primeiro é aquele que vos vai tirar do sério grarantidamente. 

É uma entrada difícil, por um bar escuro (e mate) no cais do sodré. Há também um elevador, para quem não conseguir vencer o vão das escadas, o que eu diria que é um luxo, dada a vetusta idade do imóvel onde se insere. 
No primeiro piso (“hence” a expressão Duplex), continua o negro, mas o tecto alteia, uma das paredes reveste-se de espelho de fio a pavio, naquele ângulo ideal, que nos permite ver toda a gente na sala (sim, este restaurante tem coisas dessas). Directamente por cima da escada, uma grande intervenção do Bordallo II, retratando precisamente a rua onde se insere o restaurante. A iluminação é exclusivamente dirigida a esta peça e os focos orientados para cima de cada mesa. Tudo o resto é penumbra. 

Os grandes vãos envidraçados, deixam respirar a rua, os seus ruídos e luzes. 
Já na cozinha, passando pela garrafeira, ficamos “entalados” entre o balcão de saída (que não é o circuito de sujos, ou seja só vemos as coisas bonitas a sairem), e a fachada. Se queremos abrir a janela, agarramos na mesa e deslocamo-la, abrimos a janela e voltamos a por no sítio (a cozinha agradece e passado cinco minutos os rubores das bochechas deles começam a atenuar-se). Entaladinhos mesmo, mas tão confortáveis. Lá dentro a grande azáfama, mas estranhamente calma. Coreografam-se à volta da mesa central, mas em ritmo jazz da ECM (literal, que há um Ipod, e um circuito distinto de som para usufruir).
Sendo o contacto directo, e quem come conversador especialmente sobre comida, a coisa começou devagarinho, suave, com eles ali, e nós aqui. Tivemos de puxar por eles!!! E o esparguete, é feito como? Lá se foi evoluindo, com peta-zetas douradas servidas em modo de comparação, e uma assinatura final que se adiciona na zona das fotografias. 
O meu obrigado a todos (inclusivé o pessoal de sala), que inauguraram uma tradição. 

Uma nota: saiu entretanto no Expresso, uma opinão sobre o Duplex, muito contrária a esta. Uma opinião “Nim”, a meio da tabela. O Expresso tem 100000 exemplares todas as semanas nas bancas, e um potencial de leitura gigante. 
É com pena que vejo a positividade da aposta em gente jovem, ser trocada pelo agraciamento aos já estabelecidos da vida. 

Acabei de me lembrar que dei um nó no fio do candeeiro sobre a mesa, para ver melhor quem estava à minha frente, mas esqueci-me de o desatar!
 

Forno d'Oro:  “Oh! Por favor, podem trocar de mesa?”

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O guia de Tokyo

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