Espaço Espelho d'Água

Espaço Espelho d'Água

“Exposição do Mundo Português”

Havendo viagens no tempo, uma das coisas que eu gostava de ter visitado no passado, seria seguramente a Exposição do Mundo Português e dentro dela, o Pavilhão das Diversões Náuticas de Cotinelli Telmo. Nunca passou de restaurante, com inúmeras versões: “Pavilhão dos Desportos Náuticos”, o “Peixe”, “Belém Clube Museu”, e “T-Club”. T-Club...nunca o restaurante chinês, proposta acabada em desgraça nos escaparates do Correio da Manhã e TVI, chegou sequer perto do auge. Fechou e voltou a abrir, agora como Espaço Espelho de Água, finalmente representando o mundo lusófono: propriedade de um luso-angolano, de ementa elaborada pela brasileira Ana Soares, com receitas de todo o mundo e para públicos de todo o mundo, ou não fosse esta uma das zonas mais turísticas da cidade, o nosso “Quarteirão dos Museus”.

O espaço divide-se em três zonas de usufruto, cada uma com a sua ementa (embora haja elementos repetidos). Este texto concerne sobre a parte de restauração, ao fundo.

A tropicalidade percebe-se logo a partir do ponto em que nos servem o pão. Juntamente com o trigo branco, um papari bem fino e estaladiço, quebrando qualquer perceção de origem.

Como numa qualquer taberna, começa-se pelos salgados a escolha é muito variada e extremamente apelativa. Ficamo-nos pelos bolinhos de sardinha arroz e acafrão (uma mistura insensata de supli italiano, em forma de pastel de bacalhau, com sardinha bem portuguesa), e pelas chamuças indianas de porco (not) e abóbora. A untuosidade, os pequenos pedaços de carne, o estaladiço da massa. Tudo apela ao consumo excessivo.


De prato principal o ceviche de bacalhau com aromas de coco, coentro e limão, abóbora batata doce e maçaroca de milho. São de facto muitos ingredientes, num só prato, com toda a cor do Brasil, com os sabores entre os guisados africanos (que migraram para o Brasil, claro está), o bacalhau português, a preparação ácida do Sul da América.


Tortellini de guisado de bochecha de porco, com molho de abóbora e aroma de laranja. Sorriso imediato. Encapsular bochecha de porco desfeita e depois de ter sofrido com a reacção de Maillard durante algum tempo...só dá para sorrir. A Laranja faz exactamente o mesmo efeito que na carne de porco à alentejana, ou na de vinha e alhos: corta a extrema untuosidade. Torna-a ainda mais apetecível.
Não me neguei à sobremesa, tendo a coisa corrido tão bem até então. E não é que continuou igual, não sendo de as apreciar?


Menos o bolo de rolo ao cacau com doce de leite e creme inglês de cardamomo, mas suponho que por ter imaginado, que bolo de rolo, seria a fusão entre a extensão de uma enorme folha de bebinca, com o enrolado de uma torta. Todos os sabores lá estavam, mas a consequência não era tão agradável em textura como imaginara.

Já o potinho (olha mais um nome para fondant, coulant, vulcão e todas as outras definições) de chocolate quente, caramelo e gelado de praliné de avelã, é para além de uma grandíssima bomba de bom aspecto, um fenómeno de equilibrio, com frio e quente, crocante e líquido, diversas texturas, tudo..doce!
Não sendo (suponho), preparações que agradem a todos, são seguramente fortes e muitíssimo dignas, causam excelentes memórias.


Ignoro se a consultoria Pedrita, foi para além da arquitectura em si, mas assumo que sim, que chegou à beleza dos menus, a uma eventual curadoria, sobre as coisas que se apresentam na zona de galeria por onde se acede.


A partir da sala de exposições o espaço desenvolve-se ao comprido, iniciando-se a zona de serviço com o piano de cauda preto e a zona de bar em cimento afagado do lado esquerdo sendo a parede de fundo de ambos um enorme jardim vertical, cujo verde intenso se destaca contra o inócuo dos materiais brancos e disfarça a enorme e comprida janela para a zona de preparação alimentar. À frente destes a grande sala de cafetaria, contendo as mesas contínuas da zona de cafetaria.


Após um aperto, a zona de restaurante em si, culminando no painel re-descoberto nas últimas obras, do artista Sol Lewitt. O dourado aviva-se com a quantidade de janelas, e apanhar uma destas mesas para dois, em formato nicho entre colunas é um mimo. Do outro lado, nem mesmo os aparadores mid-century conseguem ganhar destaque.


O destaque à cor do produto, é também adjuvado pelos restantes: cadeiras claras, alfaias e atoalhados totalmente brancos, tudo se inclina para a máxima reflexão da luz, que entra, já ela reflectida pelo lado ali presente ao lado.

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.


 

Quando é que passa de caro a obsceno?

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Tapisco: “Socarrat”

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