Preparar as estrelas de 2017

Preparar as estrelas de 2017

Começo por pegar em dois parágrafos da publicação feita no OVO CRU alguns dias antes da Festa de Girona:

“Há os que as amam e os que as odeiam. Países que se querem livrar delas, Chef's que se suicidam quando as perdem. Isto é de facto a matéria de que os mitos são criados, e o próximo dia 23 de Novembro, marcará indelevelmente o ramo da Gastronomia em Portugal.”
...
“A probabilidade de a montanha parir um rato existe, mas a notícia ganha cada vez mais contornos oficiais.”

Foi parido.

Ressaca:

Portugal saiu feliz de uma festa onde lhe foram atribuídas 26 estrelas, amplamente noticiadas em todos os meios de comunicação, mais 9 que o ano anterior o que corresponde a um aumento de 52%. Expressivo? Bastante. Se houver um país que tenha uma estrela e a duplique tem um aumento de 100%.

Não é pela questão da promessa frustrada é simplesmente porque o país e os seus profissionais merecem muito mais.

Isto não é bacoco, não é demagógico, não é político nem polido: as opiniões antes da entrega foram honestas, coerentes independentemente do seu autor, da informação que detinha e dos espaços que frequentou.

Eu não imagino o que seja trabalhar um ano inteiro para um objectivo e ver esse objectivo ser-lhe negado, num aparente exercício de livre arbítrio. E sei que houve gente a trabalhar para isso. Pessoalmente acredito que haja gente que o merecia e muito. Aqui, acho que o dever é procurar encher as casas destas gentes (bem sei que não falamos de trocos), dando-lhes ânimo, para que continuem o seu trabalho absolutamente esmerado, que consigam unir as suas equipas e manter o seu foco durante mais um ano.
É também, procurar que os que mantêm ou foram abençoados (aqui o abençoar não é totalmente displicente, que há ali falhas de julgamento e diferenças de julgamento que não parecem assim tão ténues), consigam prosseguir o seu rumo. Aplaudi-los por isso!

 

Desabafo:

Em relação ao “de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos”, a comparação sendo inevitável, acaba por se tornar injusta. Também eles contribuem para o aumento do nosso turismo, especialmente em tudo o que se relaciona com resmas de feriados católicos, em que a dificuldade em andar pelos centros urbanos é inerente. Copiar a um nível político o exemplo do país basco para o turismo gastronómico é algo que me desperta a atenção, e que cada vez mais procuro compreender: eles sabem o que estão a fazer e fazem-no bem, especialmente ao nível de lobby.

Não impede o desabafo: Continua a ser profundamente injusto, que todos os inspectores Michelin sejam espanhóis, quando a dinâmica turística em Portugal é neste momento muito superior à do país do lado, encontrando-se em amplo desenvolvimento deste lado contra a estagnação do outro.
Quando a nossa gastronomia absorve e reflecte países em pelo menos 3 continentes distintos, como parte da nossa herança genética, como conhecimento acumulado ao longo de séculos de história. É sempre uma comparação.

 

Profissionais:

Se há um restaurante cuja estrela é possível de obter sem ser visitado e tendo aberto pouquíssimo tempo antes da cerimónia (sejamos honestos, tivemos estrelas em estabelecimentos abertos no fim de 2015 e já em 2016), há que prosseguir também essa senda.
Há que mostrar (porque não? Lobby também é difundir informação), todas as novidades, todos os esforços, que estão a ser desenvolvidos. E enquanto os grandes grupos, conseguem fazê-lo pelo próprio pé, os verdadeiramente independentes terão mais dificuldade nisso.
O CNC e a ACPP aqui terão alguma coisa a dizer. O CNC Sendo um evento privado, possui um cariz de representatividade perante uma classe profissional, e isso espelha-se bastante, como o retratou o mesa marcada sobre a última edição e as melhorias desejáveis para a próxima. Que este tema, da divulgação, proliferação e entusiasmo da nossa gastronomia, possa ser o próximo tema, uma vez que o risco, já o abraçamos.

 

363 dias:

Um caminho a percorrer pela frente e estamos atrasados.

O comboio já saiu da gare para 2017. A um nível concertado (AHRESP, Turismo de Portugal, os anteriormente falados ACPP e CNC), parece lógica uma aproximação à entidade emissora, para patrocínio da próxima gala.
Sim, Lisboa é capital, não terá obrigatoriamente que ser, mas poderia e bem. Tem capacidades, tem restauração, tem turismo, tem todos aqueles apontamentos de que falamos sempre e que a tornam especial.

Não obstante o público alvo de cada um (e ainda faltando ler a opinião sobre alguns dos referidos, diria que a causa poderá desde já contar com alguns nomes: José Bento dos Santos, José Quitério, Vírgílio Gomes, Pedro Cruz Gomes, Duarte Calvão, Fernando Melo, Paulina Mata, Miguel Pires, Alexandra Prado Coelho, Paulo Amado ou Tiago Pais. No mínimo emissores de opiniões claras e válidas, mas em conjunto muito mais do que isso pelo desenvolvimento nacional da gastronomia (alguns parecem não gostar muito desta coisa das estrelas, mas aquilo que escrevem e dizem é sempre a favor do panorama nacional como um todo).

Quanto a mim, tenciono começar por enviar uma mensagem ao Michael Ellis, o director internacional dos guias Michelin: Aceito perfeitamente que num mundo tão grande como o que ele gere, em que há cidades com mais estrelas do que Portugal inteiro (Paris, Tokyo, Londres, Nova York, Viena, Hong Kong), aliás: onde há profissionais com mais estrelas do que Portugal inteiro (Robüchon); aceito perfeitamente que este país pouco lhe diga.
Tenho no entanto um pouco mais de dificuldade em aceitar, que com a actual dinâmica e voluptuosidade da cultura gastronómica por cá, que fiquemos todos contentes apenas com este resultado, e que ninguém lho diga.
 

O Sol quando nasce é para todos (JAS e a gastronomia)

O Sol quando nasce é para todos (JAS e a gastronomia)

Façam as vossas apostas Michelin.

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