Forno d'Oro:  “Oh! Por favor, podem trocar de mesa?”

Forno d'Oro: “Oh! Por favor, podem trocar de mesa?”

Quando se gosta de comer, há por vezes momentos, em que recordamos (com comida), outros momentos, outros episódios. 
A vinda ao Il Forno D'oro, surge a convite (agradecimentos devidos e reiterados à Zomato e ao Il Forno D'Oro), e embora estivesse numa listagem mais ou menos restrita de marcadores, não constituía de facto uma “prioridade”. Em boa hora. Sabia o que esperar, não sabia que ia ser tão agradável.
De ínicio confuso, tudo de saldou numa óptima e memorável refeição. Sentados, ao dizermos que vinhamos com convite Zomato, pediram-nos para mudar de mesa. Anuímos obviamente, para uma zona menos discreta, mas com melhor iluminação, mais centrada sobre a comida e sobre a nossa opinião claro está.

Começamos com focaccia azeite e redução balsâmica, um crostini simples de tomate e mangericão e uma voluptuosa burrata, com azeite e pimenta preta. 

Aqui estamos literalmente no domínio dos italianos: as coisas simples da vida, ingredientes de primeira apanha, muito bem executadas ou ao natural em estado perfeito e que acabam por ser de excepção por sairem do marasmo do dia a dia. 
Entretanto aconteceram alguns precalços, como o frasco de vinagre que foi ao chão e que noutro contexto e sem a atenção permanente do Tanka, poderiam ser pontos negativos (que obviamente o são), mas estamos numa pizzaria, e a ser mimados em permanência a dedicação deste pessoal, com sentido de humor, com perspicácia, com desejo de agradar é impressionante!

Continuamos com os 1/4's de pizza, saídos directamente do Ferrari, onde passaram 75 segundos a 450ºC. Parecendo que não, já derrete alguns metais. 
Como não acompanhamos com cerveja, acompanhamos com Santa Cristina, 2012, em directo da Toscânia. 
Salvaguarda: as pizzas a que fui rotinado em Itália, são romanas de massa fina, e não napolitanas verace. Não aprecio normalmente que em cima de pão de ló inchado por força química me coloquem ingredientes salgados e lhe chamem “pan pizza” por exemplo. Um preconceito que cai, notoriamente pela qualidade do que é apresentado.
Margherita: Dizem que é aqui se as coisas se vêem. Tomate San Marzano com denominação de origem controlada, um sabor mais doce e redondo com menos acidez que o standard, colhidos em modo maduro. Queijo mozarella, sem ser “de pacote”, alguns cereja e uma ou outra folha inteira de mangericão por cima. Muito boa. A massa mole (soffice, morbido), os dois cantos do triângulo juntos na borda para sustentar a fatia na mão e a primeira dentada tem necessariamente de ser apoiada. Quente. 

Fichi Prosciutto e Gorgonzola: Tomate cereja assado, figos, presunto e gorgonzola. Uma combinação de verão com um combate imenso entre os figos e o Gorgonzola a causarem aquele efeito no fundo da boca, provocado pela glândulas salivares a contrairem-se. Forte e saborosa. 
Burrata Pomodorini e Rucola: Na verdade já tinhamos comido todos este ingredientes por separado durante a refeição...Mas eu também poderia facilmente ter passado a refeição a comer apenas burrata com focaccia, que estava simplesmente extraordinária. 
Diavola: Mozarella, salame e mangericão. Mais encorpada, mais para o fim. O mangericão não tem capacidade para rivalizar com o picante, mas também não precisa, que não é dos extremos!

De sobremesa (de vez em quando abrem-se excepções), tiramisu e panacotta. Dois clássicos, executados de forma perfeita, com a preferência a ir para o tiramisú, apenas porque sim, porque tem mais texturas e mais sabores por ali a flutuarem. 
Embora esta missiva já esteja escrita à algum tempo foi reservada para a opinião 250, e vai ter de ser complementada com mais visitas seguramente: não há hipotese de não vir a provar o culatello, mais burrata daquela, algumas pizzas da secção da “terra”, como a Transumância e a Dory, o pesto da casa e a bacallá, e eventualmente o Bucatini (pasta sporca), que é a minha favorita. 

Chegada cedo, lusco-fusco, tanta luz lá dentro como cá fora. Pequenas escadas de acesso, a panóplia de cervejas artesanais do lado esquerdo (com muita pena não usufruo delas), o grande forno revestido a pastilha de ouro de frente para nós por trás do balcão onde repousa uma Berkel vermelha, linda de morrer. Notório o investimento. 
Projecto com assinatura, tudo branco, apenas com uma prateleira de exposição, onde repousam os pratos com os Brasões das diferentes Contradas do Palio de Sienna (essa corrida louca, de jockey sem sela, à volta da praça em forma de concha de Vieira, a única em que se o que interessa é a chegada do cavalo, com ou sem cavaleiro. Avanti Astrice!!!), sendo intermeadas com a explicação (ou falha de interpretação, ou de conhecimento), sobre hábitos culinários italianos, semelhante nesta última parte ao versos da ementa da Osteria. O único prato diferente, contém um dragão, atestando as origens e tenacidade de Tanka Sampkota, o proprietário. 

Destaca-se apenas aquilo que se quer destacar, com focos a incidirem mais numas mesas do que nas outras. Tudo gira de facto à volta da comida. 
O número de mesas (e a sua proximidade) que parecem excessivas, são as de uma pizzeria. Aparentemente os consumidores desejam que o estabelecimento seja fine dinning (claro que os preços ajudam a criar essa percepção), de conversas mais tranquilas, menos próximas. Eu aprecio pizzarias e dou graças por alguém ter algo a acrescentar na sua arquitectura e espaço, mantendo o seu espírito de comensal.
Serviço e conversas muito acima do prestável, do necessário pela formalidade da situação de convite, e notórias também para com as restantes mesas, numa atitude em que de facto o mestre faz a casa. 
Embora a refeição tenha ocorrido já há algum tempo, só saiu agora que foi guardada para uma edição especial. Entretanto, o restaurante foi agraciado com “a estrela Michelin das pizzas”, entregue recentemente pelo embaixador Italiano em Portugal. Um enorme atestado de qualidade.
 

Os preconceitos, foram feitos para serem quebrados. Os meus pelo menos são para isso. 

 

DiverXO

DiverXO

Duplex - Restaurante: "A surpresa"

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