Claro. Para memória futura.

Claro. Para memória futura.

O Claro fechou. Ainda assim é importante escrever sobre ele. Aliás parvoíce mesmo é não o ter feito, enquanto esteve aberto.

Frequentei duas vezes. Ambas a convite. Uma vez da Joana e do Pedro, a outra da Zomato. Obrigado a todos.

Obrigado também ao Vitor e ao Thomas, que tão bem sabem receber, e que tornaram estas experiências em algo mais do que apenas uma refeição, aquele componente intangível, que tantas vezes transforma algo que seria apenas banal noutra coisa, que deve ser muito mais valorizada.

Depositei honestamente as minhas fichas neste espaço, para a recente cerimónia em Girona de atribuição das estrelinhas Bibendum. Tinha aliás conversado sobre isso, na visita anterior, e notado na ausência de visitas sobre o tema, algum desânimo.

Há aqui qualquer coisa de muito especial e específico.
Aqui não se “brinca” com a comida. Aqui faz-se comida, portuguesa, genuína, com cuidado bastante cuidado e procura-se que o seu sabor seja de facto memorável.
Se está no prato é comestível. E por comestível, entenda-se que não é decorativo ou acessório. É essencial na conjugação criada, por quem a criou, para ser assim comida.


Bacalhau à Conde da Guarda com salada de tomate. O clássico dos clássicos. A receita não é nova. Originalmente inventada por João Ribeiro do Hotel Aviz, sofre aqui uma remodelação. Não tendo provado a primeira ignoro. Esta é definitivamente muito boa.

Salmão curado na casa, com aipo e maçã: falham-nos as tentativas de voltarmos aos processos de conservação antigos. Não dominamos nem a cura, nem a salmoura, muito particularmente naquilo que concerne a peixe. Infelizmente. Está é uma óptima tentativa, a reforçar que o devemos fazer.

Cavala alimada (com água de tomate): Mais um modo de preparação antigo. Clássico. Caldo claro, claro, um sabor rico apesar do aspecto simplificado.

Carapau alimado (com pimento verde): Semelhante ao anterior, com um pouco menos de sabor do peixe, muito mais sabor no pimento.

Falso ravioli de gamba: Outra receita herdada, desta vez de Santi Santamaria, fazendo inveja a muito restaurante japonês. O shitake a rivalizar com a gamba, muitas texturas distintas.

Polvo e pimentão doce: Não pode ser mais sintético. Bom polvo da costa, bem confeccionado em textura e tonalidade, o pimentão do doce, o azeite do bom.

Caldeirada de robalo: A caldeirada prima normalmente pela diversidade piscícola, pela riqueza de ingredientes, pelo molho densificado pelo amido da batata a desfazer. Não é o caso. Aqui apenas um peixe, apenas um caldo. O sabor no entanto, está lá todo.

Rosbife com manjericão: Quando se vê o prato é lindo. Largo, redondo, com aquelas camadas finíssimas sobrepostas. Quando nos apercebemos da quantidade de manjericão em cima o sobrolho ergue-se, deixando antever o amargor da coisa. Tal não é de todo verdade. O equilíbrio reina.

Carne com puré de batata: Tão simples quanto isto. E há tantas formas de se tornar a coisa tão gulosa. O domínio da batata no Claro é impressionante. O sabor do puré é algo de bastante memorável.

Morango com suspiros e natas: O crocante, o delicado, o voluptuoso. Cada um, atribui-lhe a ordem que quiser.

Pudim podre com recheio de maracujá: Conventual ácido. Raríssimo, porque às freiras não convinha, não dispunham de matéria prima, nem aliciava à conservação dos produtos. Agora que o ultra doce parece sair de moda, há que dar a volta.

3 chocolates: Chocoólicos do mundo: uni-vos. Esta foi criada apenas para vocês. Não é de todo a minha favorita, pela parte branca, mas aqueles com quem partilhei a refeição, foram de opinião bastante contrária.


Poucas vezes se consegue este tipo de espaço: um estacionamento dedicado e parcialmente coberto num sítio difícil, uma sala virada a mar aberto, devidamente protegida e no conforto da madeira (aquele tecto é qualquer coisa especial, modernista), uma esplanada em frente à piscina, que no verão deve ser o esplendor global.

Intimista pela dimensão geral, contemporâneo pelos cobertos, pelo serviço, pelo hotel onde se insere, essa questão que temos de começar a reduzir a um nada: Os restaurantes integrados em hotéis, possuem até melhores condições de preparação, uma vez que as cozinhas por definição devem estar desenhadas, para uma amplitude maior de serviços.

Continua a ser pernicioso, serem ostracizados, nem se percebe bem o porquê.
Perguntem a qualquer Madeirense quais os melhores restaurantes da ilha, e muito raramente irão encontrar uma resposta fora da hotelaria. Alguma razão haverá.

Até breve. 
 

Feitoria: Hoje presta-se vassalagem.

Feitoria: Hoje presta-se vassalagem.

Euskalduna Studio: Autonomia no Porto

Euskalduna Studio: Autonomia no Porto