Maria Azeitona: “mudem-me as cadeiras, por favor”

Maria Azeitona: “mudem-me as cadeiras, por favor”

Este espaço tem apenas dois anos, todos vividos no meio de uma crise financeira, situada num subúrbio e consegue desempenho bastante acima da média. 
Depois da experiência, não admira que esteja sempre cheio, que seja quase impensável conseguir marcar, que tenha um público heterogéneo, entre as famílias locais e os estrangeiros que vêem de Lisboa aqui jantar.

Pelo número de opiniões no Zomato, parece ser ilustrativo o que as redes sociais e o boca a boca conseguem fazer por uma casa. Este efeito é já conhecido por exemplo noutras duas casa, o T’Chef e o Tutto Combinatto, que partilhando também a periferia, partilham a qualidade e os fãs entusiasmados pela descoberta.

Não é comum uma casa que invista em duas colecções ao mesmo tempo. Até porque diria que elas não são muito compatíveis. Petiscos reflectem uma postura comunitária para a refeição, mais descontraída; pratos reflectem mais jantares de família, posturas mais formais.
Aqui elas estão lado a lado, pelo que há que fazer mais que uma visita, ou ter demasiada fome. Nenhuma das colecções ultrapassa a outra. Não é que haja variedade extrema, ou uma assimetria de preços entre uma e outra. São ambas bem conseguidas, e é isso que se quer.

Dos já provados (e é altamente provável que não me canse antes de conseguir terminar as opções da ementa):
Pão, Azeitonas, Queijo. Pão do muito bom, de importação de um qualquer sítio onde as coisas ainda correm lentamente e ainda não perderam a ciência toda. As azeitonas idem, bem temperadas, retalhadas, com casca de laranja. O queijo...bem...se fosse fumado, derretido e com oregãos, seria melhor. Já os pacotinhos de primor, seriam dispensáveis, digo eu.
Naco de vitela com chimichurri: Vitela e não vaca, mais clara, numa espetada, com pedaços separados por grandes pedaços de cebola, temperados posteriormente com o molho. Simples, suficente, agradável.

Folhados de alheira com puré de maçã: combinação mágica. O azedo próprio de uma boa alheira, combinado com o açúcar natural do puré de maçã. Como e isto não fosse suficiente...olha! Adicionaram-lhe bacon!
Mexlhões com queijo da ilha: Não seria uma opção, mas foi um aconselhamento. E foi bom. Dose pequena, mais que suficiente, o queijo da Ilha de cura severa, com algum picante natural à mistura.

Queijo de cabra com frutos silvestres. Outro Agridoce. Uma grande fatia tombada de queijo, meio derretida, com um coulis por cima. Sugestão novamente, este guarda-se para o fim. É na realidade uma sobremesa encapotada.
Passemos aos principais:
Polvo à Lagareiro: aqui não é especial, é apenas bem preparado, mas o que assalta o espírito é a dose exagerada que vem.
Bacalhau com broa: Idem. Aqui a dose, foi promovida a absurda. Uma posta de aba dupla do lombo, coberta. òptimo para partilhar entre vários.
Posta mirandesa: igual ao anterior, com as abas a sobrarem para fora do prato.
Bife de atum: Novamente a mesma consistência, novamente um tamanho fora do normal.
As coisas são bem servidas, as matérias primas são boas, os preços são baixos. Uma óptima aquisição fora de Lisboa, justificada plenamente pelo facto de estarem sempre cheios e com pessoas que não se importam de esperar por mesa.

Começamos com a montra. A linda montra que ignoro se está sempre com aquele produto ou não. O vinho é Caiado, cercado de produtos tipicamente alentejanos (um ramo de louro, um chouriço, um presunto) tudo pendurado no fumeiro, todos literalmente caiados, mantendo as suas formas, mas a cor transformada num jogo de sombras sobre branco, com a singela garrafa pela frente. Não obstante o momento de deleite cenográfico o que interessa é a comida, por isso entre-se.

Lá dentro as cadeiras são quase omnipresentes...quando me apresentaram o Maria Azeitona, inicialmente achei que era um restaurante mexicano. A fotografia da página zomato é disso evidência. Se as conseguirmos tirar da visão frontal, obtemos alguns detalhes bem mais interessantes, como a garrafeira aberta na zona de mesas altas, contendo umas quantas referências em formato Magnum, que os jantares mais abastados terão prazer em abrir. O enorme balcão frontal, de placas de mármore habilmente casadas e retroiluminadas, fornece o único momento de luxo, com a iluminação de tecto, pendurada e artesanal, assim como os armários galinheiro existentes atrás do balcão, fornecem aquele ar de tasca que agrada e não é pretensioso.

O atendimento é genial. Não sei quem é proprietário, se é que coexistem na sala. Juventude na sala, sabedoria no balcão, alegoria na cozinha. Até a farda de atendimento tem o seu quê para de dizer, em ganga, aberta atrás, com um cruzamento pelos braços.
A sala sempre cheia, contribui com algum ruído, que é atenuado pelo lambrim invertido de madeira, assim como o técto acústico, cujas bolinhas não são de grande valor estético, mas em termos acústicos ajudam bastante.
Para além das cadeiras devidamente desirmanadas, coexistem também um banco corrido junto à janela (alta e sem intromissão a partir do exterior), e algumas mesas altas junto à garrafeira, pequenas, mas úteis.
É na trilogia da refeição (comida, serviço, arquitectura), um quase perfeito, com detalhes que obviamente poderiam ser melhorados, mas sem desprimor para a casa em geral.

“Não temos wi-fi, utilizamos a da vizinha”

LEOPOLD + BOI-CAVALO@Baixa House

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