Restaurante T'Chef: Edição Comemorativa

Restaurante T'Chef: Edição Comemorativa

Embora extenso, vale a pena ler isto!
“Tenho quase a certeza que vais gostar deste”, foi o que me disseram quando me entregaram o convite na Zomato. 
Passados alguns dias resolvi ligar para confirmar a reserva, mas entre o número no Zomato e o número no convite, só obtinha sinais intermináveis de chamada, senhoras de voz robótica e gravadores de chamadas.
Finalllmeeennteee! O telefone atendido, a mesa reservada, chega o dia e rumamos a Telheiras, com algum desconforto, e expectativas baixas. Este não é um bairro feliz para restauração, as imagens do local, parecem mais um bar que um restaurante e restringi a pesquisa para não afectar ainda mais a opinião. 
Começámos a noite por debater o nome do restaurante: (“de'Chef”, “Ti'Chef”?) Afinal é “Tê'Chef não como português regional do Alentejo (teu), mas como a letra do alfabeto “T”.
E “T” de Telheiras, e da deusa Egipcia dos alimentos "Tcheft" (E agora, por esta é que não esperavam...)

22€ é quanto custa o menu do Chefe aqui. É a primeira vez que coloco um preço numa opinião, porque acho fundamental estabelecer algum tipo de comparativo. 
Por isso e para sistematizar contem comigo, por favor: 
1. Pão morno e manteiga MLT: Serviço cordial na recepção, sentamo-nos passam-nos a lista, e apesar de ter dito ao telefone não compreenderam plenamente, que era um convite Zomato, quando finalmente isso aconteceu...chamaram o Natanael! Que se veio apresentar, e que nem sei como é que não deixou queimar nada na cozinha, tal o tempo de conversa. O restaurante para um quinta-feira estava bem composto, de famílias, celebrações e casais. MLT, é Mel Limão e Tomilho...que a derreter no pão, fica muito mas muito guloso. (enfim, não é nada de especial...Só veio potenciar os seguintes!)
2. Casa da Passarela para acompanhar. 
3. Alheira: Placa de ardósia, base de grelos, lâminas de portobello, um croquete de alheira, com um centro afundado onde repousa um ovo de codorniz, de gema líquida. Por cima dos cogumelos, uma redução de Porto. Aqui os sabores são nacionais, estão bem conjugados sendo a pilha tão alta como larga. (isto está a melhorar a olhos vistos)
4. Planalto para subir um nível

5. Marmelada de atum: À medida que quem nos servia (e cozinhava a refeição) ia falando iamos descobrindo coisas. Entre os quais os nomes criativos dos pratos, que este não tinha. Por isso baptizei-o. Atum, depositado 48horas em sous-vide. A carne deixou de ser vermelha, adquiriu um ligeiro alaranjado e um grau de transparência. A película branca que envolve cada músculo, desapareceu, sendo aquilo apenas um bloco sólido. Por baixo um “spiralizer” produziu esparguete de courgette, al dente, e um molho de wasabi doce, dá-lhe o toque de orientalidade. (ok...e daqui vamos para onde?)
6. O porco enrolado com a cabra: A piadinha. Queijo de cabra queimado com açucar, enrolado em presunto serrano (aqui eu mudava, mas o preço infelizmente também muda), sobre alface, um tomate confitado muito mas muito bom, e um molho de alho, nada constrangedor. (este foi o mais normal, descemos um bocadinho).
7. A grande taça da China: Ramen caseiro e presunto de pato. A escolha da perna em vez do peito para salgar, faz a diferença em termos de sabor, assim como os 50% de sal/50% de acúcar para a cura. Sobre o prato, já à mesa o jus de cogumelos é adicionado à volta do molho, um mirepoix de cenoura, courgette e cebola, pontilha o branco com cores e um coração de shitake, produz uma surpresa extra. (burrrrp...aqui chegados requere-se uma pergunta: isto vai continuar durante mais quanto tempo?)
8. Salema, essa desconhecida: Nem contesto a ordem dos pratos, tal a ânsia em que estávamos pelo próximo a chegar. O golpe de mestre. Com a crise muito do peixe de terceira, que antes era deitado de volta ao mar, começou a aparecer nas arcas frigoríficas. A salema, não sendo propriamente uma novidade, nunca chegaria até aqui. Mas fez ela bem e por mérito próprio. Carne firme, em filete, sobre um risoto de tinta de choco. Branco do prato, preto do arroz, branco do filete, preto da pele, branco da emulsão à Bulhão Pato, como no Mini-bar. ( a surpresa da noite, delicada, viva, audaz e rigorosamente preparada)
9. Vale Marianes para terminar.

10. Bochecha: Felizmente este veio por último. Um sabor daqueles antigos. Um estrugido maior que um refogado, uma carne que se desfaz à colher, envolta num molho, mas óh que molho. Daqueles em que as papilas gustativas sentem e imediatamente há uma contração junto ao encaixe do maxilar, e glândulas salivares começam o seu trabalho a toda a força avante. ( Impressionante, isto é um signature dish, daqueles que é possível de ir a este sítio apenas por ele. Are we there yet?)
11. Key Lime Pie e Se abana é porque está verdinha. (Finaallmeentte as sobremesas!!! A conversa já era tanta, que não tirei sequer fotografia. Terminámos em bem, mas como extra se calhar oferecerem àgua com gás aos clientes deste menu, era uma hipótese). 
Repito-me: por 22€, ainda que sem as bebidas? Impossível! Esta refeição durou das 20.30 até às 00.40, por opção dos dois comensais que foram e pela simpatia do serviço, não tendo sido postos na rua e tendo sido os últimos a sair. 

Aqui foi tudo acerca da comida. Não é um espaço bonito embora tenha alguns detalhes muito bons, como o pequeno rasgo horizontal que circunda a cozinha como as seteiras do posto de vigilância. A iluminação delicada, permite exacerbar as obras de arte nas paredes, e os discos de vinil/ementa, sempre produzem algum efeito. 
Existe um Hype em Portugal neste momento com gastronomia. Não há dúvidas. Depois de uma primeira geração de Star Chefs potenciados pela televisão (Maria de Lurdes Modesto, Filipa Vacondeus, Chef Silva, Michel), aparece agora uma segunda, com eventos, concursos, distinções, etc. A mudança agora, é sobre a própria alimentação a redescoberta de ingredientes e técnicas que são puramente nossas. A sua aliança às novas tecnologias, aos fenómenos químicos e físicos, com um grau de educação superior, com o domínio pleno da matérias. 
Espero que isto se desenvolva, não como Português Suave, mas como NovaPortuguesa, e espero que o Natanael, seja um dos seus precursores. 

Shine on you crazy diamond!

 

Saborologia AEG

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Mini Bar: “O Chalet do Príncipe do Chiado”

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