Tapisco: “Socarrat”

Tapisco: “Socarrat”

O consumidor dita tendências e dentro destes os turistas ditam mais. Sendo o Príncipe Real uma das Mecas actuais da restauração de Lisboa, a ideia de ter mais uma restaurante de Petiscos, ou outro de Tapas, assusta à primeira vista. Misturar as duas (coisa sã que são os híbridos), pode assustar ainda mais. Já quando se fala dos nomes em questão da dupla Henrique Sá Pessoa e Rui Sanches, os dados parecem sempre rolar da mesma forma: com sucesso. O Tapisco já com a rodagem feita, encontra-se bem entregue à Joana Duarte, cujo passado por Espanha em muito ajuda à execução.
Por entre a história da tapa, como me foi passada, fala de um rei, que tendo-se visto terapeuticamente obrigado a consumir com frequência vinho, o diluía com alimentos. Vendo que o álcool assim o afectava menos obrigou a que todos os copos em todas as tabernas do reino fossem tapados com uma fatia de pão (tapa). Moralmente legítima, contradiz uma série de outra, e a história do petisco que por mais que procure não consigo encontrar uma etimologia apropriada (Solicita-se a ajuda do público!), ficam os bons preparos desta casa, descontraída, urbana, muito adequada ao momento de Lisboa.

A escolha de lugar. Num restaurante cheio será sempre difícil. Recomenda-se o balcão, ao fundo. O mais próximo da saída dos produtos para as mesas e junto a quem percebe da poda, e está a coordenar a saída.
Por aqui passa tudo, e alguns são bem mais vistosos que os outros, uns bem mais cheirosos que os outros.
Infelizmente nunca dá para provar tudo (à primeira pelo menos), e como tal fomos para a opção: #NasMaosDoChefe.
Pan con Tomate e Jamon Ibérico de Bellota. O presunto é Maldonado o que ajuda ligeiramente. As aparas que a Berkel vermelha lá ao canto não consegue cortar...vão para as croquetas (o que as tornará eventualmente nas melhores da cidade), o tomate é cru sem pele nem sementes e ralado todos os dias. Quem já tomou pequenos-almoços em Espanha, sabe que há uma diferença entre o que sai de uma lata, o que é comprado em lotes já preparados, e o que é realizado na altura, com tomate de época decente.
Esqueixada de bacalhau. Esqueixar (a primeira de duas palavras catalãs por estas linhas), quer dizer rasgar/ separar. Retrata neste caso o acto de agarrar no lombo de bacalhau seco e o desfazer para a preparação em causa. Esqueixada, sendo uma palavra poética e mais conhecida, não se compara à palavra punheta, tão tradicional e sujeita a quinhentos trocadilhos dentro de um restaurante. Eu preferia a segunda palavra, gostei bastante do sabor fresco e equilibrado da primeira.


La bomba de Lisboa. Peçam meia dúzia. Sem qualquer tipo de problema. Uma cassata salgada: centro de carne e alheira, revestido de puré de batata, revestida de migalhas grandes fritas, revestida de aioli, revestida de brava. Servido morno. À meia dúzia. Facilmente. Deixem aparecer os primeiros dias de chuva. Isto e uma garrafa de vinho.


Paella Negra com sepia e aioli. Socarrat. A segunda palavra catalã. Em catalão quer dizer queimado. No resto do mundo incluindo a Catalunha, quer dizer aquela fina camada de arroz, que ocorre no fundo de um recipiente normalmente metálico, como o arroz de pato de forno, em travessa de alumínio por cá. Aquela ligeira camada, não está queimada: está crocante, está mais escura, está envolvida numa folha fina de molho mais apurado, que no limite, permitiria fazer um canolli, recheado de gambas e aioli. A dose é gigante. Pequena dentro do ramo “paella em roda de autocarro, para bater recordes”, mas grande para duas pessoas, especialmente se comerem outras coisas. Se não quiserem comer tudo...removam a camada de cima, e “raspem o fundo ao tacho”. Definitivamente.
Mousse de Turrón de Alicante. Continuo sem ser fã de sobremesas, e tive inveja do pudim Abade de Priscos que passou por ali. Muita inveja dele.
No final de contas...tudo o que se comeu, tem uma base de “tapa” e nada de petisco. Isto implica visita obrigatória, pelo menos para as Croquetas, a tortilla, os rotos com morcilla, o bacalhau à Brás, a presa ibérica, os legumes grelhados, a açorda de gambas e o toucinho do céu. Eventualmente será demasiado para outra visita. Ou pelo menos para uma só visita. Mas se apenas de memória, me lembro de os ver passar a todos pela janela de passe...É porque visualmente são apelativos o suficiente para os querer provar!
Todos os pratos (paella incluída) são feitos na hora, o timming e precisão são por isso items essenciais que embora o cliente possa afogar a espera nos diversos e bons vermutes disponíveis, tais contratempos não são desejáveis. O facto de a cozinha estar aberta em permanência, ajuda a desejar por “lanches” salgados, à roda de uma mesa, de um copo...e uns petiscos!

Como não adorar a partir do momento em que se entra?
O grande “forno de pão” (porque não, uma reminiscência da antiga Padaria Taboense, que pisamos quando entramos). branco ao fundo, revestido a hexágonos brancos, o espelho esquerdo a duplicar o corredor, a grande “hotte” acobreada (uma cada vez mais tradição dos espaços Multifood únicos) do lado direito mesmo ao lado do painel da ilustradora mais gastronómica de Portugal, a Ana Gil, a janela de serviço directo para a rua, tão Espanhola, e que tanta falta faz no resto do mundo, a napa vermelha de “dinner” clássico por todos os lados e o detalhe brutal, dos dois degraus no balcão totalmente em moleanos, fazendo com que se trabalhe a uma óptima altura no interior, e se esteja bem e a ver tudo pelo exterior, com os pés confortavelmente assentes na posição que mais jeito nos der.


Um espaço originalmente pequeno, transforma-se para gáudio dos clientes, numa sala apetecível, de serviço rápido e fluído, com quase tudo à mostra.
Muita fotografia deve ser disparada dentro destas instalações!.

Anotem a expressão: Bombas de Lisboa. Gula Pura.
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Espaço Espelho d'Água

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Feitoria: Hoje presta-se vassalagem.

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